Durante muito tempo, eu não fui a pessoa que entrava em uma sala querendo ser vista.
Precisei aprender a me comunicar, desenvolver minha voz e entender que ocupar espaço não significava me transformar em alguém que eu não era.
Isso não aconteceu de uma hora para outra. Foi processo. Teve insegurança, tentativa, erro, muito aprendizado e momentos em que eu mesma precisei questionar o lugar que estava ocupando.
Hoje, depois de anos trabalhando com desenvolvimento de pessoas, comunicação, liderança e comportamento, percebo o quanto essa experiência atravessa também o empreendedorismo.
Porque antes de posicionar uma marca, existe uma pessoa que precisa aprender a se posicionar.
E talvez a gente fale pouco sobre isso.
Tem muito conteúdo ensinando como vender, criar autoridade, aparecer nas redes sociais, aumentar o faturamento, construir marca pessoal. Tudo isso é importante. Eu mesma trabalho com algumas dessas questões.
Mas nenhuma estratégia resolve uma falta de clareza sobre quem você é.
O CNPJ pode ser aberto rapidamente. A identidade de quem empreende vai sendo construída no caminho.
Ela aparece quando você precisa colocar preço no próprio trabalho. Quando recebe um não. Quando precisa tomar uma decisão sem ter certeza absoluta de que dará certo. Quando percebe que determinado cliente não faz mais sentido. Quando precisa sustentar um limite ou defender aquilo em que acredita.
É nesse lugar que empreendedorismo, identidade e posicionamento se encontram.
E existe uma armadilha muito comum nesse processo: olhar tanto para o mercado que você começa a desaparecer dentro do próprio negócio.
Você acompanha quem está crescendo, observa o que está viralizando, estuda o concorrente, vê alguém fazendo sucesso com determinada estratégia e pensa: talvez eu tenha que fazer assim também.
Até aí, tudo bem. Mercado precisa ser observado.
O problema é quando referência vira cópia e estratégia vira personagem.
De repente, todo mundo começa a usar as mesmas palavras, produzir os mesmos conteúdos, fazer as mesmas promessas e até contar histórias de um jeito parecido.
A marca existe. Tem logo, identidade visual, feed organizado, estratégia. Mas falta alguma coisa.
Falta gente ali dentro.
Para mim, posicionamento começa quando você consegue responder com clareza: quem sou, o que entrego, no que acredito e o que não estou disposta a negociar para crescer?
Essa última pergunta talvez seja a mais desconfortável.
Porque posicionamento também envolve renúncia.
Nem todo cliente precisa ser seu cliente. Nem todo convite precisa ser aceito. Nem toda tendência precisa entrar no seu negócio. Nem toda oportunidade combina com o lugar para onde você decidiu ir.
Demorei para entender que dizer “não” também comunica.
Aliás, tudo comunica.
O preço que você pratica, a forma como atende, como resolve um problema, como trata sua equipe, como reage quando alguma coisa dá errado e até aquilo que você permite repetidamente.
Por isso tenho dificuldade em separar comunicação de posicionamento.
Não adianta construir um discurso maravilhoso na internet se a experiência das pessoas com você conta outra história.
Você pode escrever que valoriza pessoas. A forma como você as trata vai confirmar ou desmentir isso.
Pode dizer que entrega excelência. O cliente descobrirá.
No fim das contas, marca não é só aquilo que você publica sobre si. É o que continua sendo dito sobre você quando você não está na conversa.
E aqui entra outra questão que considero fundamental: liderança.
Muita gente acredita que liderança começa quando chega a primeira equipe. Não começa.
O primeiro desafio de liderança de qualquer empreendedor é consigo mesmo.
É conseguir tomar decisões que gostaria de adiar. Reconhecer erros sem procurar culpados. Organizar prioridades. Sustentar limites. Mudar de rota quando necessário.
Porque chega uma fase em que o problema do negócio não é falta de estratégia.
É o próprio empreendedor que não cresceu na mesma velocidade da empresa.
E isso dói de admitir.
Eu também precisei desenvolver minha voz para ocupar lugares que, em outros momentos da minha vida, pareciam grandes demais para mim. E continuo aprendendo.
Talvez por isso eu não acredite em posicionamento como personagem.
Para mim, é justamente o contrário.
É quando você para de gastar tanta energia tentando parecer e começa a ter coragem de sustentar quem é.
Você continua olhando o mercado. Continua aprendendo. Ajusta estratégia, muda rota, testa coisas novas.
Mas não desaparece no processo.
Por isso, antes de perguntar “como faço meu negócio crescer?”, talvez exista uma pergunta anterior:
Quem eu preciso me tornar para sustentar o negócio que quero construir?
Porque crescer é importante.
Mas crescer sem saber quem você é pode levar sua empresa para muitos lugares e, ainda assim, afastar você daquele que realmente queria ocupar.
Priscilla Cruz
Mentora, Palestrante e Psicanalista
https://www.instagram.com/priscillacruzoficial/
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