Um inseto encontrado na horta pode virar pesquisa. O lixo observado na rua abre uma conversa sobre o meio ambiente, enquanto uma pergunta sobre o universo conduz a práticas de leitura e escrita. Nos Centros de Integração Escola e Comunidade (CIECs) da Prefeitura de Maricá, situações do cotidiano são o ponto de partida de uma proposta pedagógica inédita na cidade, baseada em vivências, autonomia, acolhimento e aproximação com o território.
O modelo da Secretaria de Educação, além da intersetorialidade com outras pastas, utiliza brincadeiras, jogos, arte, letramento, matemática, idiomas, filosofia, educação ambiental e dinâmicas ao ar livre para estimular a curiosidade, a convivência e a participação das crianças. O conteúdo curricular continua presente, mas aparece relacionado a perguntas e experiências vividas pelos próprios estudantes.
Implantada inicialmente em duas unidades, localizadas no Bairro da Amizade, no Centro, e no Barroco, em Itaipuaçu, a iniciativa funciona de maneira articulada às escolas de origem. Os estudantes cumprem um turno na unidade escolar e, no outro, participam das ações do CIEC, promovendo uma formação integral. A proposta está em consonância com a Política Municipal de Educação Integral em Tempo Integral (Resolução 004/2025) e prevê uma educação em todos os tempos e espaços.
“O CIEC nasce como um espaço educativo que amplia as oportunidades de aprendizagem e convivência para nossas crianças. Elas podem desenvolver suas habilidades, talentos e competências em um ambiente seguro, acolhedor e cheio de estímulos. Ao mesmo tempo, as famílias podem ter a tranquilidade de saber que seus filhos estão bem cuidados, enquanto seguem em suas rotinas de trabalho”, explicou o secretário de Educação, professor Rodrigo Moura.
Uma das principais marcas desses espaços é a construção de uma relação mais próxima entre estudantes e educadores. Em vez de receberem todo o material pronto, os discentes são estimulados a perguntar, pesquisar, propor temas e participar das decisões sobre o funcionamento das unidades.
“O grande diferencial é fazer com as crianças, e não apenas para elas. Elas participam das decisões, assumem responsabilidades e aprendem a questionar e a interagir com o ambiente e com aquilo que realizam”, explica Michelle Gonçalves, gerente das Comunidades de Aprendizagem.
No CIEC Tia Isa, cerca de 65 matriculados na Escola Municipal Marcos Vinícius Caetano Santana, com idades entre 9 e 12 anos, participam das dinâmicas nos turnos da manhã e da tarde. A psicopedagoga Valéria Belém, que atua no local, destaca que o trabalho permite observar aspectos que vão além do desempenho em uma tarefa específica.
“É um local de vivências e de trocas entre as crianças, os profissionais e a comunidade. Durante as oficinas, a equipe acompanha a escrita, a coordenação motora, a lateralidade, a capacidade de comunicação, a convivência e a maneira como cada criança reage aos desafios. Elas aprendem conosco, e nós também aprendemos com elas”, ressalta Valéria.
Comunidade como espaço educativo
A aproximação com o território ocorre por meio dos Grupos de Responsabilidade (GRs), onde estudantes e equipe identificam necessidades e acompanham ações coletivas, como o cuidado com a horta e as áreas comuns. Ali, atividades práticas como regar plantas, pesquisar espécies ou investigar um inseto desconhecido viram ponto de partida para o diálogo e o aprendizado.
As experiências do bairro também são levadas para as rodas de conversa no CIEC, fortalecendo a formação cidadã. “Quando eles identificam lixo na rua ou alguma situação ambiental, relacionam aquilo ao que trabalhamos no CIEC. O conhecimento não fica restrito ao centro. A ideia é que aprendam, compartilhem com as famílias e levem essas práticas para a comunidade”, reforça Valéria.
A partir da curiosidade dos estudantes, os profissionais trabalham a pesquisa, a leitura e os conteúdos previstos no currículo. Esse formato inovador, estruturado a partir do Programa Comunidade Aberta, consolida um novo modelo de educação integral em Maricá, unindo acompanhamento pedagógico, autonomia e inserção no território.
“É mais do que um espaço para a criança aprender; é um lugar em que todos se modificam. Eu era uma profissional antes de iniciar esse processo e hoje sou outra. Inovar é sempre complexo, mas esse movimento é muito gratificante”, conclui Michelle Gonçalves.
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