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Quando o propósito sai do discurso e vira movimento

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Priscilla Cruz

Nos últimos anos, poucas palavras ganharam tanto espaço no universo profissional quanto “propósito”. Falamos sobre trabalhar com propósito, empreender com propósito, liderar com propósito e construir negócios que tenham significado. A palavra se tornou tão presente que, em alguns momentos, corre o risco de perder justamente aquilo que deveria carregar: sentido.

Tenho pensado muito sobre isso, especialmente depois de uma experiência que vivi recentemente.

Na última semana, realizei mais uma edição do Start & Floresça, um encontro voltado para mulheres e construído a partir de conversas sobre identidade, posicionamento, desenvolvimento e protagonismo. Mais do que aquilo que aconteceu no palco, o que me chamou atenção foram as conversas, os relatos e as reações que surgiram ao longo daquele dia.

Quando reunimos pessoas em torno de experiências como essa, existe uma expectativa natural de que algo seja despertado. Mas, para mim, a questão mais importante começa justamente depois.

O que fazemos com aquilo que nos desperta?

Essa pergunta ultrapassa qualquer evento. Ela diz respeito à maneira como temos conduzido nossa própria vida, nossos projetos e até nossos negócios.

Vivemos em um tempo de muito acesso à informação. Nunca tivemos tantos conteúdos disponíveis sobre desenvolvimento pessoal, empreendedorismo, liderança, comunicação e carreira. Há livros, cursos, palestras, vídeos, podcasts e uma quantidade praticamente infinita de pessoas dizendo o que precisamos fazer para alcançar determinados resultados.

Ainda assim, informação não significa transformação.

Podemos compreender perfeitamente que uma mudança precisa acontecer e continuar adiando-a. Podemos saber que uma conversa precisa ser realizada e permanecer em silêncio. Podemos reconhecer que determinado projeto tem potencial e mantê-lo durante anos na gaveta. Podemos até identificar com clareza aquilo que desejamos construir e, ainda assim, não nos movimentarmos em direção a isso.

Existe uma distância importante entre saber e fazer. E é justamente nesse espaço que muitas boas intenções ficam pelo caminho.

Talvez por isso eu tenha certa preocupação quando o propósito passa a ser tratado apenas como uma descoberta. Como se existisse um grande momento em que finalmente entendemos quem somos, encontramos nossa missão e, a partir dali, tudo naturalmente começasse a fazer sentido.

Na prática, não funciona assim.

Propósito também exige escolha, responsabilidade, renúncia e constância. Ele precisa aparecer na agenda, nas prioridades, na maneira como nos posicionamos e, principalmente, nas decisões que tomamos quando ninguém está olhando.

É relativamente fácil falar sobre aquilo em que acreditamos. Mais difícil é perceber quanto dessas convicções realmente interfere na maneira como vivemos.

No empreendedorismo isso fica ainda mais evidente. Muitas pessoas desejam construir marcas fortes, negócios relevantes e uma presença profissional reconhecida, mas esquecem que todo projeto é sustentado, antes de qualquer estratégia, pelas decisões de quem está à frente dele.

Uma empresa também carrega a coragem, os medos, os limites, a visão e até as incoerências de quem a conduz.

Por isso, quando falamos em crescimento, talvez precisemos ampliar a conversa. Nem todo problema de um negócio será resolvido com uma nova estratégia de marketing, assim como nem todo impasse profissional será solucionado com mais conhecimento técnico. Em determinados momentos, o próximo nível exige uma decisão pessoal.

É preciso se posicionar. Rever uma escolha. Encerrar um ciclo. Pedir ajuda. Assumir uma responsabilidade. Começar algo que vem sendo adiado.

Esses movimentos nem sempre são grandiosos e, muitas vezes, sequer são percebidos pelas pessoas ao redor. Ainda assim, podem mudar completamente a direção de uma história.

Foi justamente essa percepção que ficou comigo depois do Start & Floresça.

Ao final de um encontro como aquele, as luzes se apagam, as pessoas voltam para suas casas e a rotina inevitavelmente recomeça. O evento termina. Mas aquilo que foi provocado não deveria terminar junto com ele.

E talvez essa seja uma boa maneira de pensar sobre propósito.

Não como um lugar ao qual finalmente chegamos, mas como algo que precisa continuar nos movimentando.

Porque emoção pode despertar uma mudança, mas dificilmente consegue sustentá-la sozinha. Depois do entusiasmo inicial, chegam a rotina, os compromissos, os boletos, as inseguranças e todas aquelas razões bastante convincentes para continuar exatamente onde estamos.

É nesse momento que propósito deixa de ser inspiração e passa a exigir posicionamento.

Tenho aprendido, ao longo dos anos trabalhando com desenvolvimento de pessoas, que transformações importantes nem sempre começam com grandes acontecimentos. Às vezes, começam com uma decisão que ninguém aplaude, uma conversa que vinha sendo evitada ou um pequeno passo que finalmente foi dado.

Talvez florescer tenha muito mais relação com isso do que costumamos imaginar.

A flor é a parte visível. Antes dela houve raiz, tempo, processo e movimento.

Por isso, depois de tudo que vivi na última semana, ficou uma pergunta que considero mais importante do que qualquer frase inspiradora:

O que aquilo que você já sabe está mudando na maneira como você vive?

Porque chega um momento em que acumular consciência deixa de ser suficiente. É preciso transformar consciência em escolha e escolha em movimento.

Propósito não deveria servir apenas para explicar quem somos.

Deveria nos responsabilizar por aquilo que fazemos com quem somos.

E talvez seja exatamente aí que o verdadeiro florescimento comece.

Divulgação

Priscilla Cruz
Mentrora, Palestrante, Treinadora Comportamental e Psicanalista

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